Pitacos #19 – Ben-Hur x Ben-Hur

Obs: Esse texto contem spoilers. Sou um grande entusiasta do gênero de filmes épicos. Desde criança, aguardava com bastante expectativa a época da Páscoa, quando a sessão da tarde nos brindava com os exemplares mais notáveis do gênero. Pude conferir Barrabás (Richard Fleischer, 1961), Reis dos Reis (Nicholas Ray, 1961), Os Dez Mandamentos (Cecil B. DeMille, 1956), O Manto Sagrado (Henry Koster, 1953), Spartacus (Stanley Kubrick, 1960) e outros exemplares do gênero. Curiosamente, assisti Ben-Hur (William Wyler, 1959) mais tarde, já próximo da idade adulta.

O filme, ganhador de 11 Oscars, me arrebatou. Era uma mistura perfeita de épico religioso, drama, vingança e ação. Tudo parecia minuciosamente calculado: as aparições de Jesus em momentos chaves do filme e cercadas de uma mística de mistério (Jesus só aparece de costas), a jornada do homem que sofre injustamente e busca vingança, as reviravoltas que o levam ao trono de Cesar e, por fim, a épica e eterna cena da corrida de bigas. Não consigo pensar em outro filme que melhor defina o gênero épico. Ben-Hur está para os épicos como O Poderoso Chefão está para os filmes de máfia, ou Três Homens em Conflito está para os faroestes.

Diante disso, fica impossível não comparar a versão de 59 com esta, lançada em 2016 e dirigida por Timur Bekmambetov. Justamente por isso, este texto não é uma crítica (jamais conseguiria ser imparcial) ao filme e sim, um comparativo entre as duas versões.

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Messala x Messala

A primeira diferença notável–  maior trunfo da versão de 2016 – é poder ter contato com parte da história de vida de Messala. Algumas informações são bastante interessantes: Messala foi adotado pela família Hur, era um romano renegado em virtude de ser descendente de um dos assassinos de Júlio Cesar e era, por fim, mal visto pela família que o acolhera. Tudo isso contribuiu para que ele resolvesse galgar seu próprio espaço no exército romano.

Já na versão de 59, não temos qualquer informação sobre quem era Messala, a não ser o fato de que se tratava de um grande amigo de Judah Ben-Hur. Além disso, ele já estava totalmente envolvido com os anseios de expansão do Império Romano. Não temos aqui um Messala em cima do muro. Além disso, este background é, de certa forma, algo que corrige um dos únicos defeitos da versão de 59: o início muito arrastado. Ponto para o novo Ben-Hur.

Ben-Hur 59 (0) x (1) Ben-Hur 2016

Inocente x Culpado

A partir do momento em que somos levados ao fato que culmina com a prisão de Ben-Hur, a coisa começa a tomar outros rumos. No filme de 59, acontece um acidente – uma telha se desprende do alpendre e atinge o cortejo do novo governador da judeia. No filme de 2016, não existem acidentes: um fugitivo da facção radical judaica dos zelotes, escondido na casa da família Hur, promove um ataque ao governador.

Considerei essa escolha equivocada: Ben-Hur aqui não é inocente aos olhos romanos. De fato, ele acobertava um criminoso e isto lhe imputava culpa. Mesmo assim, Messala titubeia em prender a família. No filme de 59, ele vê uma oportunidade ao prender seu melhor amigo em nome de Roma. O Messala de 59 é um vilão. E eu gosto de vilões de verdade. Ponto para o antigo Ben-Hur.

Ben-Hur 59 (1) x (1) Ben-Hur 2016

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Jesus x Santoro

Gostei da escolha de Rodrigo Santoro para viver Cristo nessa versão. Santoro entrega um Jesus competente, com cara e jeito de Jesus. Em determinado momento do filme, parece que ele é um Jesus parente do Jesus de Jim Caviziel em Paixão de Cristo. Achei algumas similaridades estéticas com o filme de Mel Gibson nas cenas em que Santoro aparece. Ele consegue emocionar bastante. Achei uma ou outra cena gratuita, mas nada que desabone a direção ou mesmo o ator.

Agora meu irmão, vamos combinar né: As aparições de Jesus, no filme de 59, são infinitamente mais impactantes. Como já disse, o diretor foi muito feliz ao nos mostrar um Jesus que só aparece de costas. Isso cria uma mística e um mistério notáveis, que elevam a experiência a outro patamar. Vejam, por exemplo, a famosa cena em que Jesus dá água para Ben-Hur. Não podemos ver como Jesus olhou para o soldado, ao encará-lo. Apenas a reação do soldado, que esmorece ao olhar para Jesus é o que temos. Qual foi o olhar? Um olhar amoroso, de autoridade, sereno? Impossível saber, cada espectador tem a sua própria ideia e isto enriquece a experiência cinematográfica grandemente. É uma cena que vale o filme. Ponto para o antigo Ben-Hur.

Ben-Hur 59 (2) x (1) Ben-Hur 2016

Galés x Galés

A cena da batalha das Galés é uma das poucas cenas extremamente datadas da versão de 59 – o que é totalmente compreensível dada as limitações técnicas da época. Na versão atual, sobram efeitos. A batalha das embarcações romanas é a cena de ação mais interessante do novo Ben-Hur. Apesar de ser uma boa cena de ação, a resolução é um pouco boboca. O naufrágio serve apenas para jogar Judah numa praia, observado por nômades apostadores. Algo bastante similar ao Zatarra de Caviziel (olha ele aí de novo) em O Conde de Monte Cristo (Kevin Reynolds, 2002).

Já no filme de 59, a batalha tem um porquê: A bordo da galé onde estava Ben-Hur estava também o comandante Quintus Arrius que acabaria por ser salvo por Judah. Isto nos leva a um arco bastante interessante, inexistente na nova versão (falo disso no próximo tópico). Mesmo assim, vou ser bonzinho: Nesta comparação, ambos os filmes pontuam.

 Ben-Hur 59 (3) x (2) Ben-Hur 2016

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Arrius, o moço

A maior decepção da nova versão é a inexistência do arco onde vemos Judah ascender ao posto de cidadão romano, com as bênçãos de Cesar. Adotado por Arrius após salvá-lo, Judah vive durante um tempo na capital do império, mas a incerteza do destino de sua mãe e irmã falam mais alto e ele resolve voltar para Jerusalém. Somente durante a jornada de volta é que ele encontra Ilderim, o homem que o colocaria no circo romano.

Todas as cenas onde Judah interage com Ilderim são superiores, desde a apresentação de cada cavalo (aquela coisa de cada um possuir o nome de estrela e obedecer ao dono) até o treinamento para a corrida. Morgan Freeman faz bom Ilderim, sisudo, sábio e jamaicano – mas é impossível compará-lo ao Ilderim de Hugh Griffith.

Temos ainda outra cena fantástica da versão de 59: o reencontro entre Judah – agora um nobre romano – e Messala. Outra cena que vale o filme. Ponto para a versão de 59.

Ben-Hur 59 (4) x (2) Ben-Hur 2016

Bigas x Bigas

A corrida de bigas é emocionante em ambas as versões. Infelizmente, fica difícil para um novo Ben-Hur concorrer com uma cena tão consagrada em pé de igualdade. A diferença, então, fica por conta dos efeitos especiais. Mesmo assim, a cena da versão de 59 eclipsa totalmente a cena da versão atual.

Outro ponto falho fica por conta, novamente, da resolução da cena: ao passo que na versão de 59 Messala se vinga ao revelar o verdadeiro paradeiro e a condição da mãe e irmã de Judah, na versão atual, nada acontece. Quem faz a revelação é um servo de Messala, que aparece subitamente em uma cena solta e sem conexão com o filme. O fato de Messala ser tão frio na versão de 59 deixa Ben-Hur ainda mais transtornado com a situação. Esse desespero faz com que Judah não meça consequências para salvá-las e isto torna o final muito mais coerente. Novamente, ponto para a versão de 59.

Ben-Hur 59 (5) x (2) Ben-Hur 2016

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O Final

Em ambos os filmes, a morte de Jesus opera o milagre necessário para que todos vivessem felizes para sempre. Contudo, como disse no tópico anterior, existe um contexto bastante marcante para que o milagre ocorra, na versão antiga. Na versão de 2016, o milagre simplesmente acontece. Não vemos Ben-Hur correndo para “tirar a mãe da forca”, ou melhor, da lepra. Considerei, portanto, o final da nova versão bastante desconexo. Pra piorar, Messala é resgatado das sombras romanas por Judah, aos 48 do segundo tempo. Poderíamos viver sem essa forçada de barra. Como disse o stormer Kako, coisas do estúdio. Mais um ponto pra 59.

Ben-Hur 59 (6) x (2) Ben-Hur 2016

O novo Ben-Hur não é um filme ruim, longe disso. É bem executado, com boas atuações de elenco e uma direção ok. Infelizmente, a sombra do filme de 59 é grande demais, o que torna impossível alguma grande pretensão desta nova versão.

Enquanto o filme de 59 segue, ainda hoje, em “compasso de abordagem”, o filme de 2016 não chega nem sequer perto do “compasso de batalha”. Mas isto não chega a ser um defeito. O Ben-Hur de 59 é que é grande demais.

Os posts da série “pitacos” são escritos em uma linguagem informal e pessoal.

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