Playstorm Review – Titãs: Nheengatu

Semana passada fiz o review do disco novo do Detonautas e, no final, perguntei: será que o disco novo do Detonautas vai salvar o rock nacional?

A dúvida durou pouco: na mesma semana, o Titãs lançou Nheengatu, décimo quarto álbum de estúdio da banda. Antes de ouvir, pensei: “Ah, é só mais um disco água com açúcar do Titãs”, mas ao final da audição, a pergunta estava respondida. O Rock Nacional tem salvação! O disco do Titãs é o melhor trabalho da banda em uns 20 anos. Esqueça a fase água com açúcar pós-acústico: eis que décadas depois, a banda que nos deu “Cabeça Dinossauro” ainda existe! Detonautas, sorry…vai ficar pra próxima!

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Nheengatu

O Titãs é uma banda formada em São Paulo, no início dos anos 80. A formação clássica do Titãs contava com Charles Gavin (que foi trocado por André Jung com o IRA), Branco Mello, Tony Mallu Mader Belotto, Paulo Miklos, Arnaldo Antunes, Sérgio Britto, Marcelo Fromer e Nando Reis. Ao longo dos anos, o Titãs foi perdendo integrantes: o primeiro a sair foi Arnaldo Antunes. Marcelo Fromer morreu, vítima de atropelamento e, logo em seguida, foi a vez de Nando Reis dizer adeus para seguir em uma sólida carreira solo. O último a deixar a banda foi o baterista Charles Gavin. Hoje o Titãs, que já foi octeto, virou quarteto. E houve quem apostasse em um final natural da banda. Ledo engano.

Cabeça Dinossauro é considerado o melhor álbum do Titãs: cheio de músicas-protesto tocadas em ritmo pesado e sujo, o disco é um dos marcos do Rock Nacional. Os Titãs lançaram outros bons discos na sequência (“Jesus não tem dentes no país dos banguelas”  e o MPB alike “Õ Blésq Blom”) mas sem repetir o sucesso de “Cabeça”. Foi só com o lançamento do Acústico MTV que o Titãs foi catapultado novamente ao panteão do Rock Nacional: uma releitura de grandes sucessos, num formato até então relativamente novo no Brasil; não tinha como dar errado. Na sequência desse sucesso estrondoso veio uma leva de discos “água-com-açúcar”: Uma musiquinha numa novela aqui, outra numa rádio ali – nada muito relevante.

Língua geral

Nheengatu significa “língua geral” e remete a uma língua falada pelos Jesuítas durante o período de colonização; uma mistura de português com tupi-guarani. A capa do disco, uma torre de Babel, também confirma esse conceito.

O disco, como bem disse a banda, é uma volta as raízes: um som pesado como “Cabeça” e abrasileirado, como “Blésq”. Ficou mais pro “Cabeça” mesmo, o que é ótimo.

Faixa a faixa

Fardado

Abertura em grande estilo, som pesado, vocal rasgado, glutural. Fala sobre individualismo.

Mensageiro da desgraça

Abertura igualmente pesada, quase que uma sequência de “Fardado”.  Fala das agruras que assolam a sociedade, tendo a cidade de São Paulo como cenário dessa desgraceira toda. Crack, mendigos queimados, estupro, miséria e cachaça: está tudo lá.

República dos Bananas

Acelerada, mas não tão pesada, como é característica de algumas das melhores músicas dos Titãs (Sonífera Ilha). Letra bastante politizada, retratando bastante do que é a sociedade brasileira hoje.

Fala Renata

Ritmo mesclando o pesado com pitadas de baião (eu acho). A letra “fala fala fala sem parar” sobre quem fala demais e, na verdade, não diz nada que presta. Uma das minhas prediletas.

Cadáver sobre cadáver

Um hino ao destino derradeiro de todos nós, a morte. Um dia, todo mundo vai morrer, não tem jeito. Pode ser crente, ateu, rico, pobre, de velho; todo mundo morre. O ritmo continua pesado e o backing vocal com “vários Titãs” remete aos bons e velhos tempos.

Canalha

Aqui, um cover de Walter Franco que se encaixa perfeitamente na proposta do disco.

Pedofilia

Música pesada, seja em formato ou em letra. Aborda o tema de forma bastante crua. Choca bastante, difícil de ouvir.

Chegada ao Brasil (Terra a vista)

Irmã gêmea de República dos Bananas, segue na mesma temática e forma. Tem um humor bastante ácido na letra (a referência ao famoso poema de Gonçalves Dias, Canção do Exílio, é um belo exemplo disso). Um dos melhores momentos do disco, bateria tinindo.

Eu me sinto bem

Pesada e com pitadas de ritmo nacional. A letra não me diz muita coisa, achei a canção mais fraca do disco.

Flores pra ela

Música sobre machismo, quebras de ritmo muito interessantes. Bateria e guitarra em alto nível aqui.

Não pode

Outra com grande destaque para o vocal “velhos-tempos” do Titãs. Fala sobre proibições em geral, que assolam ou controlam nossa sociedade.

Senhor

O tema aqui esbarra em religião, em uma discussão bastante cínica entre um cara e Deus, que quer livrar-se apenas das consequências dos seus atos e não dos erros em si. Bastante corajosa.

Baião de dois

Outra música que mescla o pesado com ritmos nacionais. Cheia de palavrões e protestos, diverte, mas não tem lá grande conteúdo. Funciona mais para registrar a qualidade instrumental e artística dos Titãs.

Quem são os animais

O disco fecha com uma faixa pesada e cheia de energia, pra cima. Fala diversidade, racismo e pré-conceitos em geral. Grande momento do disco.

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Pitaco final

É muito bom ver uma banda das antigas produzindo material inédito e relevante. É muito bom ver uma banda das antigas tendo coragem de voltar às raízes, mesmo que tais raízes não tenham um potencial mercadológico muito alto. É muito bom ver uma banda das antigas em plena forma, seja vocal ou instrumental. É muito bom ver uma banda das antigas sendo produzida de forma competente, demonstrando respeito ao seu legado.

O disco novo dos Titãs só tem qualidades: chego a ousar, dizendo que se trata de um marco no Rock Nacional.

Sim, agora posso dizer a plenos pulmões: O Rock Nacional tem salvação!

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